Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Cracolândia, Kensington e o conforto de culpar a esquerda

Toda vez que imagens da Cracolândia circulam, o roteiro é previsível. Alguém aponta o dedo, respira fundo e diz: “é isso que a esquerda faz”. O mesmo acontece quando vídeos de Kensington, na Filadélfia, viralizam. O choque vira argumento. O sofrimento vira prova. E a conclusão vem pronta, sem esforço.
Mas talvez a pergunta correta não seja quem governa esses lugares, e sim há quanto tempo decidimos não olhar para eles de verdade.
A Cracolândia existe há décadas. Atravessou governos, ideologias, planos de “revitalização” e operações policiais cinematográficas. Se fosse apenas uma falha pontual de gestão progressista, já teria desaparecido sob a mão pesada da repressão. Não desapareceu. Mudou de lugar, de forma, de nome. Continuou ali, como um espelho incômodo.

Kensington segue a mesma lógica. Não nasceu do excesso de cuidado, mas da ausência dele. Bairros inteiros foram abandonados quando o trabalho industrial sumiu, quando a saúde mental virou corte orçamentário e quando o Estado escolheu a prisão como resposta padrão ao sofrimento social. A droga não chegou primeiro. Ela ocupou o espaço que já estava vazio.

Ainda assim, insistimos em tratar essas cenas como falhas morais ou ideológicas. É mais fácil. Culpar a esquerda é confortável porque dispensa perguntas difíceis. Dispensa falar de desigualdade, de racismo estrutural, de cidades pensadas para excluir. Dispensa admitir que o problema é mais antigo, mais profundo e muito menos conveniente.

No Brasil, a Cracolândia virou sinônimo de “perda de controle”. Na América Latina, bairros degradados são usados como prova de que políticas sociais “não funcionam”. Nos Estados Unidos, o caos urbano é apresentado como consequência direta de governos democratas. O discurso muda pouco. O alvo muda conforme a eleição.

O que quase nunca se diz é que esses países compartilham a mesma política de drogas: punitiva, seletiva e historicamente fracassada. Uma política que prende muito, cuida pouco e mata em silêncio. Uma política que não acaba com o consumo, mas decide quem vai pagar o preço dele.

Quando alguém defende redução de danos, equipes de saúde na rua ou tratamento em liberdade, a reação é imediata: dizem que é permissividade, que é conivência, que é ideologia. Curioso como cuidar sempre vira suspeito, enquanto punir nunca precisa se explicar. Curioso como a morte causada pela repressão é tratada como efeito colateral, mas a vida salva pelo cuidado vira escândalo.

Há algo profundamente revelador nisso. Não se trata apenas de política pública, mas de quais vidas consideramos recuperáveis. A guerra às drogas nunca foi só sobre drogas. Sempre foi sobre controle, sobre quem pode circular, quem pode errar e quem deve ser descartado.

A extrema direita entende isso muito bem. Por isso precisa dessas imagens. Precisa do medo, do choque, da degradação exposta. Precisa que Kensington e a Cracolândia existam como aviso: “é isso que acontece quando vocês desviam da ordem”. Sem esse inimigo interno, o discurso da força perde sentido.

O problema é que, enquanto discutimos quem culpar, pessoas seguem morrendo. Morrem de overdose, de frio, de violência, de abandono. Morrem também socialmente, quando são reduzidas a estatística, a paisagem urbana, a argumento de internet.

Talvez o maior fracasso não seja de um campo político específico, mas de uma sociedade que prefere punir a cuidar. Que aceita a exclusão como parte da paisagem. Que se escandaliza com a cena, mas não com as causas.

Cracolândia e Kensington não são provas de que a esquerda falhou. São provas de que seguimos escolhendo a resposta mais fácil, e mais cruel. Enquanto essa escolha não mudar, a cena vai continuar se repetindo. E sempre haverá alguém pronto para apontar o dedo, aliviado por não precisar olhar para si.


Opinião JPT

Comente o que achou:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Veja Mais

Posts Relacionados:

Articulação de André Quintão garante investimento de R$ 100 mil para a APAE de Muriaé

Articulação de André Quintão garante investimento de R$ 100 mil para a APAE de Muriaé

A APAE de Muriaé recebeu uma importante conquista que fortalece o atendimento oferecido às pessoas com deficiência e suas famílias. Por meio da articulação do ex Secretário Nacional de Assistência Social, André Quintão, foram destinados R$ 100 mil em recursos do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) para a

Denunciar Fake News é um Dever de Todos

Denunciar Fake News é um Dever de Todos

A disseminação de fake news prejudica o debate público, confunde a população e enfraquece a confiança nas informações que circulam na internet. Por isso, sempre que identificar conteúdos falsos, enganosos ou manipulados, é importante denunciar. Da mesma forma, fique atento a anúncios políticos patrocinados no Google. Caso encontre publicidade política

Jornal do PT de Muriaé – Primeira Edição: Maio/2026

Jornal do PT de Muriaé – Primeira Edição: Maio/2026

Primeira Edição: Maio/2026 O Governo Federal reafirma seu compromisso com o desenvolvimento de Muriaé, destinando R$ 389,3 milhões em investimentos somente neste ano de 2025. Esse montante expressivo tem sido essencial para a execução de obras, o fortalecimento de serviços públicos e a melhoria da qualidade de vida da população muriaeense.

Aprovado e sancionado: Lei de Cássia Ribeiro do PT fortalece proteção às mulheres em Muriaé

Aprovado e sancionado: Lei de Cássia Ribeiro do PT fortalece proteção às mulheres em Muriaé

Uma importante conquista para a proteção e dignidade das mulheres foi sancionada em Muriaé. Trata-se da Lei nº 7.592/2026, de autoria da vereadora Cássia Ribeiro, que institui prioridade e flexibilização de requisitos para mulheres em situação de violência doméstica e familiar nos programas habitacionais do município. A medida representa um passo concreto

Cracolândia, Kensington e o conforto de culpar a esquerda

Cracolândia, Kensington e o conforto de culpar a esquerda

Toda vez que imagens da Cracolândia circulam, o roteiro é previsível. Alguém aponta o dedo, respira fundo e diz: “é isso que a esquerda faz”. O mesmo acontece quando vídeos de Kensington, na Filadélfia, viralizam. O choque vira argumento. O sofrimento vira prova. E a conclusão vem pronta, sem esforço.Mas